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Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher

Boa noite!


 
Devo aos leitores desta newsletter uma explicação e é por ela que devo começar. O lançamento no passado mês de Junho da Rádio Observador (que além de online já pode ser ouvida em FM na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4) tem sido tão absorvente que não tenho conseguido manter a regularidade habitual do Macroscópio. Todos os dias, pelas 8h10, tenho uma crónica, Contra-Corrente, e ainda não consegui adaptar todas as rotinas para não vos faltar ao contacto. Hoje consegui, até porque o tema que abordei logo de manhã – a chegada ao governo de Madrid, como vice-presidente, de Pablo Iglesias, um populista radical que defendeu ser a Venezuela um exemplo para a Europa e que “a guilhotina é o acontecimento fundador da democracia” – se prende com o tema desta newsletter a crescente polarização política que caracteriza muitas democracias.
 
Entre as democracias que conhecem precisamente um período de polarização política temos Espanha, um país dividido por um lado entre dois nacionalismos opostos e exacerbados que se auto-alimentam, como notou Jorge Almeida Fernandes, no Público, em A Espanha entre dois nacionalismos, e por outro lado rigidamente agrupada em dois blocos, um de esquerda e outro de direita, que valem eleitoralmente mais ou menos o mesmo e que não parecem ter vasos comunicantes, na análise de José Fernández-Albertos, no El Pais, em Gobernar España con el empate a 43%. Nesse texto ele nota que “cada vez que les hacen ir a votar, los españoles seguimos mostrándonos testarudos en algo fundamental: en ninguna de las últimas cuatro elecciones generales, los partidos de la derecha ni de la izquierda han tenido menos del 42% de los votos, ni han logrado tampoco tener más del 47%. En estas elecciones hemos repetido el resultado de abril: tanto la izquierda como la derecha suman el 43% de los votos.” Mais: “La estabilidad de los bloques es más sorprendente en tanto que han aparecido nuevas fuerzas políticas que en otros contextos cercanos sí han logrado trascender a esas divisiones.”
 
Não haverá aqui nada de radicalmente novo se virmos como o passado de Espanha, e da Catalunha, se projectam no seu presente – algo que Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto fizeram comigo em duas Conversas à Quinta que me atrevo a considerar antológicas, Quem tem mais História: Portugal ou a Catalunha? e A Catalunha tem o resto de Espanha aprisionado –, mas algo de muito inquietante quando vemos a memória história ser usada para fins políticos. Chamo por isso a atenção para a entrevista de um dos grandes especialistas americanos em história de Espanha, Stanley G. Payne, que numa entrevista ao La Razon, defendeu que "Oponerse a la Ley de Memoria Histórica es un deber moral". Em causa está a controversa legislação sobre a reparação devida às vítimas da Guerra Civil, mas que Payne considera ter sido instrumentalizada: “Su objetivo es controlar el discurso político de la historia y del pasado. Crear una historia de la opresión, ser víctimas, el discurso por el victimismo. Significa presentar la historia con una sola cara, sin libertad de expresión, de crítica, anular la investigación, salvo la que supuestamente sirva para dichos fines con todo tipo de ilegalidades. No se ha inventado en España, pero Sánchez está yendo más lejos que Zapatero y mucho más que otras leyes en Europa. En España se ha convertido en un arma sectaria para controlar a los partidos de la oposición.”
 


Acontece que o controlo do discurso político, ou melhor, da narrativa política, incluindo as suas referências históricas e culturais, é precisamente um dos pontos quase sempre presentes nos processos que conduzem à extrema polarização política. Talvez uma boa forma de perceber esse processo é compreender o que se passou nos últimos 20 anos na Polónia, um dos países onde o passado sempre muito presente em qualquer debate sobre o presente e o futuro do país. Ora há sensivelmente um ano a jornalista e historiadora Anne Applebaum, que é casada com um polaco que já foi ministro em vários governos, contou na The Atlantic a sua experiência pessoal para ilustrar como é fácil um país ficar irremediavelmente dividido. Em A Warning From Europe: The Worst Is Yet to Come começa por recordar a festa de Ano Novo de 1999 em sua casa, com uma centena de amigos, todos a celebrar a entrada no novo milénio. Só que agora, “Nearly two decades later, I would now cross the street to avoid some of the people who were at my New Year’s Eve party. They, in turn, would not only refuse to enter my house, they would be embarrassed to admit they had ever been there. In fact, about half the people who were at that party would no longer speak to the other half. The estrangements are political, not personal. Poland is now one of the most polarized societies in Europe, and we have found ourselves on opposite sides of a profound divide, one that runs through not only what used to be the Polish right but also the old Hungarian right, the Italian right, and, with some differences, the British right and the American right, too.” É um longo e muito interessante ensaio onde nos fala de como tudo foi mudando, sobretudo de como “Given the right conditions, any society can turn against democracy. Indeed, if history is anything to go by, all societies eventually will”.
 
Como referi este texto tem um ano, mas Polarização versus democracia, de Milan W. Svolik, é mais recente e acabou de sair na edição em português do Journal of Democracy, disponibilizada pela Fundação Fernando Henrique Cardoso. É um ensaio que aborda a experiência de vários países em vários continentes, aborda derivas populistas de direita mas também de esquerda, e que toca num ponto fulcral: “pessoas comuns estão, de fato, dispostas a trocar princípios democráticos por interesses sectários — um fator que pode explicar por que democracias polarizadas parecem ser particularmente vulneráveis a retrocessos democráticos”. Mais exactamente: “Os principais protagonistas na maioria dos relatos acadêmicos e jornalísticos de retrocessos democráticos são os autocratas em potencial; são lideres como Chávez, Putin e Erdoğan, que vêm desconstruindo democracias. Por sua vez, pessoas comuns estão alheias a esse drama. Se aparecem no elenco, é quase sempre no papel das vitimas. Essas histórias apresentam a luta pela sobrevivência da democracia como uma luta entre elites oportunistas e mesmo antidemocráticas e massas liberais e pró-democracia. Essa narrativa não leva em conta um fator importante: Chávez, Putin e Erdoğan erodiram a democracia em seus países com o consentimento tácito e às vezes explicito de uma parte significativa — muitas vezes a maioria — de seus eleitorados. Que fique claro: isso não inocenta os autocratas. (...) Mas, como o retrocesso democráticos é um processo que começa a partir de uma democracia, pessoas comuns desempenham um papel central nisso. São partícipes indispensáveis, ainda que hesitantes. Potenciais autocratas conseguem subverter a democracia somente quando recebem essa oportunidade de um público sectarista.”
 
No fundo a tese é que numa sociedade polarizada a cegueira partidária, o sectarismo, faz com que mais facilmente surja a predisposição para aceitar derivas autocráticas, até porque as “narrativas” que dominam o espaço público tendem a diabolizar os adversários, a torna-los menos dignos de respeito. Este processo também é descrito num texto de Thomas Carothers e Andrew O’Donohue publicado no site do Carnegie Endowment for Internacional Peace, How to Understand the Global Spread of Political Polarization. Destaco esta passage: “Severe polarization damages all institutions essential to democracy. It routinely undermines the independence of the judiciary, as politicians attack the courts as biased or pack them with loyalists. It reduces legislatures either to gridlock or to a rubberstamp function. In presidential systems, it frequently leads to the abuse of executive powers and promotes the toxic view that the president represents only his or her supporters, rather than the country as a whole. Perhaps most fundamentally, polarization shatters informal but crucial norms of tolerance and moderation—like conceding peacefully after an electoral defeat—that keep political competition within bounds.”
 
Muitas vezes nos interrogamos como se chegou aqui, sendo certo que o grau de polarização aumentou claramente no debate nas redes sociais – o estudo A Long-Term Analysis of Polarization on Twitter diz claramente que “Our analysis shows that online polarization has indeed increased over the past eight years” – mas já é mais controverso como contrariar essa tendência. Habitualmente considera-se que nas redes sociais as pessoas tendem a viver só dentro da sua “tribo”, sem ouvir os argumentos da outra parte e seguindo aqueles que já dizem aquilo com que concordam, mas a verdade é que não é seguro que garantir que todos escutem os argumentos de todos diminua a polarização. Na verdade um outro estudo, em que utilizadores do Twitter politicamente identificados se voluntariaram para seguir oponentes terminou com ambos os lados ligeiramente mais radicalizados e não mais abertos aos pontos de vista contrários, como a Vox contava em When Twitter users hear out the other side, they become more polarized.


 
Estamos contudo a falar de utilizadores das redes sociais politizados. E os outros? Há quem defenda que a polarização não será assim tão extremada. Ou seja, que ela é real nos meios políticos e nas redações, mas menos real entre os cidadãos comuns. John Harris defendeu isso mesmo no Guardian em Britain is less polarised than the media would have us believe. Foi ao terreno e contou-nos por exemplo esta história: “In the south of town, I met Donna Fuller, a brilliant, energised community council leader and grassroots social activist who avoids party politics. “Brexit’s going on, and there’s all sorts of arguments around it,” she said. “But actually, that means nothing to the people round here. It’s almost above them … happening to them, not with them.” Implicit in what she said was something still too little understood. People were asked to choose one of two options in 2016, and did as they were told – but that does not mean that the leave voters among them are necessarily minded to follow the prime minister as he rides his knackered stallion to Brussels any more than everyone who voted remain is now desperate for another referendum.”

No mesmo sentido vai uma reportagem do New York Times, The America That Isn’t Polarized, onde se tentava responder à pergunta: “Political institutions may be more divided than they’ve been in a century and a half, but how divided are Americans themselves?” Ora a resposta, fora dos meios mais politizados, acabava por ser semelhante à encontrada naquela região do Reino Unido: “We are just not seeing the polarization among the masses that people imagine,” said Sam Abrams, a visiting scholar at the American Enterprise Institute, who surveyed a nationally representative sample of Americans with NORC at the University of Chicago last year. “People who watch MSNBC and Fox are a loud but small minority. They are not representative of most Americans.” These Americans are easy to miss. They are less likely to post about politics on social media, and they may be less likely to cross paths with the politically engaged in person. They are more likely not to vote. Just 18 percent have a college degree, and 44 percent are nonwhite. Nearly half are under 40.”
 
Estas duas últimas referências talvez pudessem funcionar como notas de franco optimismo. Deixem-me porém moderá-lo: se os que não estão polarizados não votam, e são os que estão polarizados que votam, no fim do dia o resultado pode acabar por ser o mesmo. Sociedades muito divididas podem não ser sociedades muito mobilizadas para votar – em Espanha, no passado domingo, a abstenção atém aumentou.
 
E por hoje é tudo. Espero conseguir voltar à regularidade desta newsletter, e desejo-vos bom fim-de-semana e um descanso retemperador.
 
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