A eleição de três mulheres afrodescendentes para o Parlamento português suscitou muitas e variadas reacções, algumas excessivas, outras francamente despropositadas, e não tinha planos para um Macroscópio sobre este tema até ler dois textos hoje publicados, um no Observador, outro no Público. Ambos, se bem que de forma diferente, fizeram com que se acendesse uma luz de alarme no meu espírito: será que aquilo que deveria ser apenas uma decorrência da normalidade – haver mais mulheres deputadas, haver mais diversidade nas bancadas parlamentares – nos vai levar ao que noutros países toma o nome de “política identitária”? Será que, daqui por uns tempos, em vez de sermos o José, a Maria, o Tiago ou a Joacine, passamos a ser definidos pela nossa cor de pele, pela nossa orientação sexual, pela nossa religião, pela nossa origem social, deixando de ser pessoas para ser partes de grupos, uns por definição privilegiados, outros por proclamação oprimidos?
Os dois textos a que me refiro são os de Marta Mucznik no Observador,
Joacine, Beatriz, Romualda e as mulheres afrodescendentes no Parlamento, e o de João Júlio Cerqueira no Público,
A preocupação com André Ventura.
No primeiro desses textos a autora, que já trabalhou nos Estados Unidos e conhece por dentro o alcance das políticas identitárias, face às reacções geradas pela eleição daquelas três deputadas deixou o seguinte alerta: “
Se por um lado considero importante colocar na agenda o tema do racismo estrutural, da inclusão e das desigualdades étnico-raciais, rejeito absolutamente as tentativas sistemáticas de elementos da esquerda e da direita de tornar esta questão numa arma de combate contra o adversário político, num tema ‘fraturante’ e polarizador entre a alegada ‘esquerda radical’ e a alegada ‘direita reacionária’.”
O texto de João Júlio Cerqueira toca em muitos assuntos, mas alguém que começa por esclarecer desta forma o seu posicionamento político – “
nas últimas eleições europeias votei no Livre de Rui Tavares e nestas eleições legislativas votei no PS de António Costa. Nunca, na minha vida, votei num partido de direita” – acaba por ser muito contundente na crítica que faz à campanha conduzida pela agora deputada do Livre, Joacine Katar-Moreira, “
que interpretou as eleições como um “concurso de coitadinhos”, afirmando-se como a mais coitadinha dos candidatos. Katar trouxe para Portugal o identity politics
americano. Representa o feminismo radical, que pede uma revolução cultural em todos os contextos sociais e económicos, contra a opressão do patriarcado (habitualmente representado pelo homem branco). Um discurso altamente polarizador, criador de “Trumps e Bolsonaros”, já que afasta uma grande parte do eleitorado na direção oposta a este radicalismo de esquerda. Toda a campanha de Katar circulou à volta do seu sexo, cor de pele, origem e da sua gaguez. Não foi culpa da comunicação social, foi opção política.”
Os leitores mais atentos do Macroscópio saberão que em anteriores newsletters já abordei os excessos da
identity politics, pelo que estava naturalmente alerta para os primeiros sinais que indicassem a replicação no nosso país do mesmo estilo de política. Nestes dias a minha atenção era redobrada pois mão amiga fizera-me chegar, precisamente no dia das eleições, um vídeo que circula no YouTube desde Julho e que já conta com muitas centenas de milhar de visualizações. Trata-se de
Evergreen et les dérives du progressisme e relata-nos o que se passou há já dois anos na Universidade de Evergreen, nos arredores de Seattle, nos Estados Unidos, há já dois anos. O vídeo tem quase uma hora mas introduz-nos a um mundo tão radicalizado que ultrapassa a nossa imaginação.
Depois de algumas buscas na internet encontrei no New York Times um artigo de Bari Weiss,
When the Left Turns on Its Own, que descreve o que se passou naquele campus. E que é verdadeiramente surpreendente: “
Bret Weinstein is a biology professor at Evergreen State College in Olympia, Wash., who supported Bernie Sanders, admiringly retweets Glenn Greenwald and was an outspoken supporter of the Occupy Wall Street movement. You could be forgiven for thinking that Mr. Weinstein, who identifies himself as “deeply progressive,” is just the kind of teacher that students at one of the most left-wing colleges in the country would admire. Instead, he has become a victim of an increasingly widespread campaign by leftist students against anyone who dares challenge ideological orthodoxy on campus. This professor’s crime? He had the gall to challenge a day of racial segregation.”
Por outras palavras: um professor que nós situaríamos na extrema-esquerda da política norte-americana foi literalmente linchado por estudantes ainda mais radicais por se opor a uma celebração de dita “política identitária”. E quando digo linchado não exagero: uma das partes mais impressionantes do vídeo é quando ele se vê rodeado por estudantes e lhes pede que o deixem expor os seus argumentos e estes respondem que ele, só por ter tomado a posição que tomou, deixou de ter o direito de falar. Assustador. Sendo que ainda é mais assustador perceber que tudo tem a cobertura, mesmo o incentivo, do reitor daquela universidade.
Dir-me-ão: mas isso é em certos campus universitários radicalizados. Sim, é verdade. Mas não só. Nestes últimos meses uma outra polémica igualmente inacreditável dividiu a cidade de São Francisco: a de saber se uns murais dedicados à vida de George Washington pintados na década de 1930 na escola com o mesmo nome deviam ser ou não destruídos. Sim, e estou mesmo a referir-me a George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, o mais querido dos pais fundadores da Nação, o comandante do exército que combateu e derrotou os ingleses e ganhou a guerra da independência.
Mais uma vez os detalhes da história ultrapassam a nossa imaginação. A primeira decisão do conselho escolar, que foi de mandar destruir os murais, surgiu na sequência de queixas de alunos que se diziam ofendidos porque George Washington era proprietário de escravos. Ora sucede que esse facto nem sequer é omitido nos murais da
George Washington High School, pintados por
Victor Arnautoff, um muralista que trabalhou com o mexicano Diego Rivera e era comunista. Por isso mesmo fez questão de pintar murais quase subversivos, que mostravam não só os escravos como não omitiam o tratamento dados aos índios durante a construção dos Estados Unidos. Para os fanáticos da
identity politics nada disto tem importância, pelo que o mais que se conseguiu até ao momento foi uma meia vitória: os murais já não serão destruídos, mas apenas tapados com panos, para não “ofenderem” nenhum aluno. A polémica naturalmente não acabou e pode encontrar um bom ponto da situação em
San Francisco mural controversy: perspectives and updates, no site de uma das organizações que tem lutado pela preservação daquele legado artístico, a National Coalition Against Censorship.
Entre os textos interessantes que vale a pena ler, destaco o de Michele H. Bogart na New York Review of Books,
The Problem with Canceling the Arnautoff Murals, de que destaco estas duas passagens:
- Arnautoff never stated his intentions outright. His approach was understated, even ironic in tone, but it was consistent with his broader outlook as a Communist in 1935–1936 who sympathized with African-Americans, Native Americans, and working people—an outlook made manifest in his Life of George Washington. Subversively for its time, the high school fresco series portrayed Washington himself and his legacy to the nation as complicit with the institution of slavery and acts of genocide against Native Americans.
- The significance of traditional murals and monuments lies not merely in their status as static objects and images, nor merely as paragons of virtue or villainy, but also as articulations of biography and urban social history. Public art is a dynamic political process that unfolds over time and involves specific people, groups, and circumstances. It is a nexus of interactions, negotiations, and powerplays, past and present. Today’s Arnautoff mural dramas have taken on a life of their own, but they are part and parcel of the paintings’ meaning as a material part of San Francisco’s ongoing history. This more catholic perspective on civic art as process and municipal history can offer a constructive way to understand these projects and the controversies, and get beyond the destructive polarities of entrenched positions. Educators could engage students in a fruitful conversation about how these circumstances came about. They could explore together the contrast between the left political positions Arnautoff held and the racist views held by many of the period, and how this tension is inscribed in his art.
O segundo texto foi publicado no site judaico The Tablet (Victor Arnautoff nascera na Rússia numa família judia), é de Jonah Raskin e chama-se
Down With George Washington! Dele destaco o enquadramento político da obra, já que esta foi realizada no quadro do programa de obras públicas do New Deal de Roosevelt e o partido comunista americano era nessa época um apoiante do presidente: “
One might also argue that the murals at the high school are Communist propaganda. After all, under Earl Browder, the CP-USA adopted the slogan, “Communism is 20th century Americanism,” and did little or nothing to confront or antagonize President Franklin D. Roosevelt and the New Deal for most of the 1930s and ’40s. The CP viewed the founding fathers, especially Thomas Jefferson, as political progenitors of the Bolsheviks. Hence the CP-backed school was called “The Jefferson School.” Lefty books from International Publishers were sold at the Jefferson Bookstore in Manhattan.”
É caso para dizer: as voltas que o mundo dá. Mas, nalguns casos, não devia dar. Deixo-vos por isso com estas duas histórias americanas, indicadoras de até que excessos pode ir a “política identitária”. Nem tudo o que vem dos Estados Unidos são boas ideias, e nem todas as más ideias são as que vêm do lado de Trump.
Por hoje e por esta semana é tudo. Tenham bom descanso.
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