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Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher

Boa noite!


 
Cimeira do Clima nas Nações Unidas em Nova Iorque, um discurso apaixonado de Greta Thunberg, milhares de manifestações e mais uma sexta-feira de “greves pelo clima”. Pelo maio mais um relatório do painel de cientistas da ONU, o IPCC, e muitas controvérsias, pelo que não podia ignorar o tema nesta newsletter que regressa depois de um intervalo involuntário. Não vou fazer aqui a síntese do que se passou, nem sequer de algumas das controvérsias que cruzaram a imprensa portuguesa e internacional. O meu objectivo é outro. Primeiro, oferecer alguma informação de referência que permita situar a dimensão dos problemas que enfrentamos. E, depois, deixar-vos uma mão cheia de notícias, e também de perspectivas, mais positivas, destinadas a sinalizar que nem tudo são sombras negras. O nosso Planeta é mais resiliente do que parece e o ser humano mais engenhoso e inventivo do que pensamos.


 
Começo assim pela excelente síntese da The Economist da semana passada, que dedicou a capa e o seu dossier de abertura a este tema. Vale a pena lê-lo todo, para perceber de onde partimos e onde estamos, mas uma das coisas que me impressionou em The past, present and future of climate change foi a franqueza com que aí se assumia que Replacing the fossil-fuel technology which is reshaping the climate remains a massive task”. Por outras palavras: é fácil falar em descarbonizar, é muito difícil descarbonizar à escala necessária. Basta pensar que after a spectacular boom in renewable-energy installations, electricity from the wind and the sun now accounts for 7% of the world’s total generation.” Ora, prossegue a revista, One step towards halving emissions by 2030 would be to ramp such renewable-electricity generation up to half the total. This would mean a fivefold-to-tenfold increase in capacity. Expanding hydroelectricity and nuclear power would lessen the challenge of all those square kilometres of solar panels and millions of windmills.” Reparem que já estamos a falar das menos populares barragens e de uma energia nuclear que ninguém deseja. Mesmo assim a tarefa seria gigantesca: Last year world electricity demand rose by 3.7%. Eleven years of such growth would see demand in 2030 half as large again as demand in 2018. All that new capacity would have to be fossil-fuel-free.” Mas agora reparem no seguinte: “Electricity is the easy part. Emissions from generating plants are less than 40% of all industrial emissions. Progress on reducing emissions from industrial processes and transport is far less advanced. Only 0.5% of the world’s vehicles are electric.
 
A revista expõe outros caminhos que estão a ser explorados para resolver o problema da descarbonização, mas não ilude o dilema: hoje por hoje não sabemos como cumprir o Acordo de Paris, quanto mais ir além dele. Foi isso mesmo que sublinhei numa das minha crónicas Contra Corrente da rádio do Observador onde reagi às exigência da jovem sueca. Podem ouvir o podcast aqui: Mas como é que tu te atreves, Greta Thunberg? Devo dizer que o meu pessimismo nessa manhã, para além de informado pela leitura da Economist, estava também influenciado pela reflexão de Marco Robalo, um matemático português a leccionar na Sorbonne em Paris, que num texto no Observador, A lei do EROI, em que explica que, “no passado, os ciclos do Malthus foram quebradas não por uma tecnologia milagrosa mas pela descoberta de uma fonte de energia mais barata — o carvão e o petróleo. Hoje em dia, com as necessidades de consumo instaladas, e olhando exclusivamente para o EROI [“Energy return on energy invested”], só uma aposta em massa no nuclear permitiria o mesmo milagre, que ninguém parece está disposto a aceitar”. Por outras palavras: temos um modelo económico que necessita de crescimento constante para assegurar a sua estabilidade mas não temos ainda tecnologias que assegurem esse crescimento no futuro sem por em causa o equilíbrio climático.
 
A leitura de Burning Down the House, de Alan Weisman, na New York Review of Books, um longo texto que tem como base dois livros recentes – The Uninhabitable Earth: Life After Warmingde David Wallace-Wells, e Falter: Has the Human Game Begun to Play Itself Out? de Bill McKibben – é imprescindível e dá-nos uma ideia mais precisa, e mais assustadora, do que pode estar a acontecer, mesmo sendo diferente a perspectiva dos dois autores e assumida a dificuldade de quem escreve a recensão: “Environmental writers today have a twofold problem. First, how to overcome readers’ resistance to ever-worsening truths, especially when climate-change denial has turned into a political credo and a highly profitable industry with its own television network (...). Second, in view of the breathless pace of new discoveries, publishing can barely keep up. Refined models continually revise earlier predictions of how quickly ice will melt, how fast and high CO2 levels and seas will rise, how much methane will be belched from thawing permafrost, how fiercely storms will blow and fires will burn, how long imperiled species can hang on, and how soon fresh water will run out (even as they try to forecast flooding from excessive rainfall). There’s a real chance that an environmental book will be obsolete by its publication date.”


 
Falta ainda dar-vos conta do que dizia o relatório mais recente do IPCC, divulgado esta semana e centrado no que está a acontecer aos oceanos. É longo e técnico, pelo que vos sugiro a síntese feita pelo New York Times, bastante completa. Em The World’s Oceans Are in Danger, Major Climate Change Report Warns explica-se bem como “Climate change is heating the oceans and altering their chemistry so dramatically that it is threatening seafood supplies, fueling cyclones and floods and posing profound risks to the hundreds of millions of people living along the coasts”.
 
**Uma mensagem da Fundación Cepsa: Reconhecer e premiar iniciativas que tenham como propósito melhorar a qualidade de vida e promover a inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade social é o grande objetivo dos Prémios ao Valor Social. Esta é já a 15.ª edição do galardão criado pela Fundación Cepsa, cujo objetivo passa por apoiar a integração de minorias ou grupos em situação de exclusão, desenvolver competências, reduzir assimetrias e iniquidades, e proteger de violência, entre outras dimensões. Veja aqui como se candidatar aos prémios, cujo valor ascende a 400 mil euros. Tem até 3 de outubro.**
 
A leitura destas notícias e de todos estes relatórios – que são aqueles a que a imprensa dá por regra mais atenção – talvez devesse ser compensada com o facto de haver sempre um outro lado, isto é, haver sempre progresso. Muito com base num site que me indicaram e que é bem interessante – Human progress –, que tem entre os seus animadores o biólogo Matt Ridley, autor do informado e desafiante livro The Rational Optimist, encontrei alguns textos e informações que mostram que nem tudo está a correr mal. O primeiro é mesmo de Matt Ridley e parte de uma curiosa pergunta: Why are lions decreasing, wolves increasing and tigers holding steady? A resposta é simples e desconcertante: “Basically, because wolves are in rich countries, lions in poor countries and tigers in middle income countries. Prosperity is the solution not the problem.” Surpreendidos? Não estejam. Também em Portugal há hoje mais lobos, javalis, veados, corços, até já por cá terá andado um urso. O artigo explica porquê. Tal como expõe as vantagens do progresso, nomeadamente na agricultura: “It’s been calculated that if today’s population were to be fed using the mainly organic yields of 1960, we would have to farm 82% of the world’s land, whereas actually we farm about 38%. Thanks to fertilisers, tractors, genetics and pesticides, we now need 68% less land to produce a given quantity if food than we did in 1960. That’s a good thing. Most sensible conservationists now realise that “land sparing” is the right approach – intensive farming plus land set aside, rather than inefficient farming with some nature in the fields.”


 
Outra notícia surpreendente, esta dada pela BBC: 2019 ozone hole could be smallest in three decades. Todos nos recordamos de como o “buraco do ozono” nos atormentava há uma geração atrás, mas entretanto o problema como que desapareceu. Porquê? Os cientistas não sabem bem, pois as medidas tomadas para evitar a emissão de gases que destruíam a camada de ozono não tiraram esses gases da atmosfera: "It's not really related to the Montreal Protocol where we've tried to reduce chlorine and bromine in the atmosphere because they're still there. It's much more related to a dynamical event. People will obviously ask questions related to climate change, but we simply can't answer that at this point."


 
Ora aqui pode estar uma surpresa: as mudanças climáticas que tanto nos preocupam numas frentes, podem ter ajudado a resolver um outro problema que nos inquietava noutra frente, o da camada de ozono. Sinal de que o planeta tem dinamismos que ainda não dominamos completamente. Outro sinal na mesmo direcção é apontado num outro artigo de Matt Ridley, Rejoice, the Earth Is Becoming Greener: “In 2016 a paper was published by 32 authors from 24 institutions in eight countries that analysed satellite data and concluded that there had been a roughly 14% increase in green vegetation over 30 years. The study attributed 70% of this increase to the extra carbon dioxide in the atmosphere. The lead author on the study, Zaichun Zhu of Beijing University, says this is equivalent to adding a new continent of green vegetation twice the size of the mainland United States.” Como se costuma dizer é só um estudo e só uma hipótese, mas que também vai contracorrente.


 
Outra notícia que achei bem interessante foi uma relativa ao problema das emissões associadas à produção de carne de vaca, um tema que o João Francisco Gomes explicou com claridade no especial do Observador Universidade de Coimbra e a carne de vaca. Qual é o real impacto no ambiente? O principal problema, como todos sabem, são as emissões de metano fruto do processo digestivo dos ruminantes. Não sendo viável – imagino eu – equipar o gado vacum com colectores de escape capazes de captar o fatal metano, que fazer? Por bem, parece que a solução pode passar por misturar na comida uma percentagem ínfima de uma alga vermelha chamada Asparagopsis taxiformis. Já havia indicações de que ingerindo essa alga as vacas passariam a emitir 90 a 99% menos metano, mas agora um estudo de uma universidade australiana veio corroborar essa tese. O press-release está aqui: Burp-free cow feed drives seaweed science at USC. Em síntese, “When added to cow feed at less than two percent of the dry matter, this particular seaweed completely knocks out methane production. It contains chemicals that reduce the microbes in the cows’ stomachs that cause them to burp when they eat grass.” Os amantes de carne de vaca podem ter esperança, os criadores também.
 
Continuando na minha senda de notícias positivas, eis que talvez possa vir a ser possível não só parar o envelhecimento, como revertê-lo. É o que se pode ler em Biological age of humans reversed by years in groundbreaking study, scientists suggest: “I’d expected to see slowing down of the clock, but not a reversal,” researcher Steve Horvath from the University of California, Los Angeles told Nature, which first reported the findings. “That felt kind of futuristic.” Por outro lado, todos os que se preocupam com a pegada ecológica do transporte dos alimentos fiquem sabendo que estão a surgir tecnologias que permitem ter hortas em altura nas grandes cidades, isto é, ao lado de nossas casas. Ainda é caro e levanta outros problemas, mas não deixa de ser interessante conhecer a experiência em The future of food: Why farming is moving indoors: "Rather than ship food across the world, we ship the climate data and feed it into our operating system". 


 
Para o fim, cumprindo a tradição, deixei o texto mais provocador: Why Some Environmentalists Don't Appreciate Prosperity, de Marian L. Tupy, publicado no Human Progress. A tese é que “People enjoying the best environmental quality and the highest standards of living are also disproportionately more likely to be pessimistic” mas o argumento é sofisticado, até porque parte do testemunho de alguns ambientalistas. Por exemplo “Michael Shellenberger, an American environmentalist who won Time magazine’s "Hero of the Environment" award in 2008 and founded a California-based think-tank called Environmental Progress, noted in a recent Quillette podcast that life in a rich society “is kind of boring. There isn’t a struggle for survival, so there’s a huge question of meaning, and of course that’s deepened by the fact that increasingly few of us believe in a traditional god.” According to Shellenberger, “We all need to feel like heroes in our own mind ... and what does it mean to become a hero in a society where so much of our ... basic sustenance of life is already provided for us? People want to feel powerful.”
 
Espero ter-vos deixado as indicações mais importantes sobre onde se podem informar sobre a realidade das alterações climáticas e, ao mesmo tempo, deixado algumas pistas que permitem desafiar  os discursos mais ortodoxos e repetitivos. Como dizia o outro, tudo isto é muito complicado e não vamos lá só com proclamações ou por uma só via. Porventura nem iremos por nenhuma das vias que até agora descobrimos e desenvolvemos.
 
De resto, tenho um bom fim-de-semana, que o tempo vai estar bom. Um Outono ainda quentinho já que o Verão foi fresquinho...
 
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